A carne de segunda sem osso e a gasolina ficaram mais caras em reais durante o terceiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Mas o balanço pelo olhar de quem trabalha precisa incluir também a renda: nos valores mais recentes pesquisados, o salário mínimo cresceu mais que o preço dessas compras. Isso reduziu seu peso relativo no piso nacional, embora não elimine o aperto de quem precisa pagar alimentação, moradia e contas com pouco dinheiro. [1–7]

Na capital paulista, a categoria carne de segunda sem osso da pesquisa Procon-SP/Dieese passou de R$ 32,36 por quilo em dezembro de 2022 para R$ 33,77 em agosto de 2026, alta nominal de 4,4%. O maior valor mensal encontrado entre janeiro de 2023 e agosto de 2026 foi R$ 35,73, em dezembro de 2025, 10,4% acima da referência anterior à posse. A carne havia caído para R$ 29,02 no fim de 2023, antes de voltar a subir. [1–5]

Na série da ANP, a média estadual da gasolina comum alcançou seu pico do recorte em abril de 2026: R$ 6,650 por litro em São Paulo e R$ 6,730 no Rio de Janeiro. As altas sobre dezembro de 2022 foram de 36,6% e 33,0%. Em setembro de 2026, as médias estavam em R$ 6,350 e R$ 6,610, respectivamente. São médias mensais estaduais, e não o preço máximo encontrado em um posto. [6]

Produto e localAntes da posse — dezembro de 2022Pico identificadoValor mais recente
Carne de segunda sem osso — São Paulo capitalR$ 32,36/kgR$ 35,73/kg — dezembro de 2025R$ 33,77/kg — agosto de 2026
Gasolina comum — Estado de São PauloR$ 4,870/lR$ 6,650/l — abril de 2026R$ 6,350/l — setembro de 2026
Gasolina comum — Estado do Rio de JaneiroR$ 5,060/lR$ 6,730/l — abril de 2026R$ 6,610/l — setembro de 2026

O salário precisa entrar na conta

O salário mínimo era de R$ 1.212 em dezembro de 2022 e chegou a R$ 1.621 em 2026, aumento nominal de 33,7%. Uma compra ilustrativa de cinco quilos da carne pesquisada custava R$ 161,80 na referência de 2022 e R$ 168,85 em agosto de 2026. Em proporção a um mínimo, a despesa caiu de 13,35% para 10,42%. No pico da carne, em dezembro de 2025, os mesmos cinco quilos custariam R$ 178,65, equivalentes a 11,77% do mínimo de R$ 1.518 daquele ano. [1,4,5,7]

“Em proporção a um mínimo, a despesa caiu de 13,35% para 10,42%.”

Para 30 litros de gasolina, a despesa mais recente seria de R$ 190,50 em São Paulo e R$ 198,30 no Rio. Representaria 11,75% e 12,23% de um mínimo de 2026, abaixo dos 12,05% e 12,52% calculados com os preços e o mínimo de dezembro de 2022. No pico paulista de abril de 2026, porém, essa compra consumiria 12,31% do mínimo, acima da referência inicial. A recuperação não foi uniforme ao longo do período. [6,7]

Compra ilustrativa mais recente1 mínimo2 mínimos3 mínimos
5 kg de carne em SP — agosto de 202610,42%5,21%3,47%
30 litros de gasolina em SP — setembro de 202611,75%5,88%3,92%
30 litros de gasolina no RJ — setembro de 202612,23%6,12%4,08%

Cálculos da reportagem sobre rendas brutas de R$ 1.621, R$ 3.242 e R$ 4.863. As linhas usam datas diferentes e não foram somadas. As quantidades são exemplos de orçamento, não recomendações nutricionais nem retratos do consumo de todas as famílias.

A cesta e a luz continuam pressionando o orçamento

O alívio de uma compra específica não significa que todo o custo de vida esteja resolvido. Entre dezembro de 2022 e setembro de 2026, o IPCA da região metropolitana de São Paulo acumulou alta de 20,25%. Alimentação e bebidas subiram 20,82%, carnes 21,92%, energia elétrica residencial 24,05% e gasolina 34,26%. No Rio, as variações foram de 17,59%, 14,46%, 20,57%, 28,55% e 30,69%, respectivamente. [8]

“O alívio de uma compra específica não significa que todo o custo de vida esteja resolvido.”

O índice de carnes reúne produtos e estabelecimentos diferentes da categoria do Procon-SP. Por isso, a alta de 21,92% no IPCA paulista não contradiz os 4,4% da carne de segunda sem osso: são medidas distintas. O gráfico da capa conserva as cinco linhas e as cores da reportagem anterior, agora com base em dezembro de 2022 e dados até setembro de 2026. O limite inferior do eixo foi ampliado para −20% para exibir integralmente as quedas; o superior continua em 84%. O mandato ainda não terminou. [1–5,8]

A Petrobras mudou sua estratégia comercial para diesel e gasolina em maio de 2023, substituindo a política anterior por referências que consideram o custo alternativo do cliente e o valor marginal para a companhia. A mudança não fixa o preço final na bomba. Tributos, mistura de etanol e custos e margens da distribuição e da revenda também precisam ser considerados. A variação observada durante um governo não mede, isoladamente, o efeito de suas decisões. [9]

Avanços sociais não encerram a cobrança

O balanço social também precisa reconhecer resultados. Segundo a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE divulgada em 2025, a pobreza caiu de 27,3% da população em 2023 para 23,1% em 2024. A extrema pobreza recuou de 4,4% para 3,5%. São avanços relevantes; a permanência de quase um quarto da população abaixo da linha de pobreza utilizada pelo estudo mostra o tamanho do trabalho ainda necessário. O dado é de 2024 e não descreve automaticamente a situação de 2026. [10]

“Um governo que se apresenta como defensor dos trabalhadores deve ser cobrado pela velocidade e pelo alcance da melhora.”

Um governo que se apresenta como defensor dos trabalhadores deve ser cobrado pela velocidade e pelo alcance da melhora. Não basta que a média da renda avance se famílias continuam sem margem para absorver aumentos de comida e energia. O risco de insegurança alimentar exige acompanhamento próprio: nem a inflação nem o salário individual, sozinhos, permitem diagnosticar se uma família está em situação de fome.

Quem tem força para decidir no Congresso

O presidente não governa sozinho. A Frente Parlamentar da Agropecuária informava, em cadastro atualizado em 5 de outubro de 2026, 299 deputados federais e 48 senadores: 58,3% das 513 cadeiras da Câmara e 59,3% das 81 do Senado. A adesão ao grupo revela organização política em torno da agropecuária; não significa que todos sejam fazendeiros ou votem da mesma forma em qualquer assunto. [11]

“O presidente não governa sozinho.”

Outro recorte é o levantamento do DIAP para a legislatura 2023–2027. O documento identificou 178 deputados e 32 senadores na bancada empresarial; 57 e 24, respectivamente, na ruralista; e 35 deputados e seis senadores na sindical. São classificações de um estudo preliminar elaborado após a eleição de 2022, não uma contagem atualizada de todos os ocupantes em outubro de 2026. A bancada sindical é um indicador de trajetória em entidades de trabalhadores, não o total de parlamentares de origem trabalhadora. [12]

Bancada no levantamento do DIAPCâmara — 513 cadeirasSenado — 81 cadeiras
Empresarial178 — 34,7%32 — 39,5%
Ruralista57 — 11,1%24 — 29,6%
Sindical35 — 6,8%6 — 7,4%

Fonte: DIAP, levantamento preliminar para 2023–2027. As bancadas podem se sobrepor e não devem ser somadas. O critério ruralista do DIAP é mais restrito que a adesão à FPA.

Nos estados a profissão declarada mostra apenas parte do quadro

Para os Legislativos estaduais, a reportagem processou os registros oficiais de candidaturas do TSE de 2022. Entre os 1.059 eleitos para as assembleias e a Câmara Legislativa do Distrito Federal, 119 declararam a ocupação empresário. Nove declararam produtor agropecuário, seis pecuarista e seis agricultor: 21 nessas três categorias. Não se trata do número total de pessoas com patrimônio empresarial ou vínculos com o agro. Um agricultor também pode ser trabalhador da agricultura familiar. [13]

“Nos estados a profissão declarada mostra apenas parte do quadro”

Em São Paulo, 11 dos 94 eleitos para a Alesp declararam a ocupação empresário; ninguém apareceu nas três categorias rurais selecionadas. Isso não indica ausência de influência do setor. O cadastro consultado da Frente Parlamentar do Agronegócio Paulista relaciona 47 nomes, incluindo o coordenador, os efetivos e os apoiadores; dois são assinalados pela própria página como fora do exercício do mandato. O registro reúne adesões de diferentes partidos. [13,14]

Muitos candidatos informam deputado, vereador ou outra profissão no registro eleitoral. Esses dados não permitem chamar todos os demais de trabalhadores sem negócios, nem concluir que os empresários sejam maioria em todas as casas. As assembleias estaduais também não integram o Congresso Nacional nem votam uma emenda à Constituição federal. [13,15]

O Congresso limita a agenda mas não substitui a responsabilidade de Lula

A força dos grupos empresariais e do agro ajuda a explicar a necessidade de negociar políticas que redistribuam renda ou alterem relações de trabalho. Em análise publicada em dezembro de 2023, o analista Neuriberg Dias, no DIAP, apontou as frentes do agro e do empreendedorismo como polos de resistência à agenda sindical e descreveu uma maioria parlamentar alinhada aos interesses do mercado. A entidade atua junto ao movimento sindical. Esse diagnóstico político ajuda a contextualizar as dificuldades do governo; não comprova uma intenção única de cada parlamentar nem explica toda decisão do mandato. [11,12,20]

“A eleição do presidente, portanto, não equivale à eleição de uma maioria parlamentar para executar seu programa.”

Mudanças constitucionais exigem pelo menos 308 votos na Câmara e 49 no Senado, em dois turnos em cada casa. A eleição do presidente, portanto, não equivale à eleição de uma maioria parlamentar para executar seu programa. Negociações, pressão social e o conteúdo de cada proposta fazem diferença. Os eleitos em outubro de 2026 para a próxima legislatura não podem ser tratados como se já tivessem exercido os mandatos que começam em 2027. [15]

Também há escolhas do próprio governo a discutir. Lula retomou a política de valorização do mínimo em 2023, mas sancionou em dezembro de 2024 a regra que limita seu ganho real a até 2,5% ao ano entre 2025 e 2030, dentro dos parâmetros do arcabouço fiscal. A limitação foi incorporada a um projeto apresentado pelo líder do governo e outros deputados. É legítimo cobrar se esse teto é compatível com a recuperação de renda pretendida, em vez de atribuir todos os limites sociais à oposição. [16,17]

O fim da escala 6 por 1 transforma descanso em direito

O marco mais recente dessa disputa ocorreu em 16 de outubro de 2026, quando o Congresso promulgou a Emenda Constitucional 141. A mudança assegura dois dias de repouso semanal remunerado e reduz a jornada máxima para 40 horas, sem redução salarial. O texto prevê duas etapas: após dois meses da publicação, teto de 42 horas e início da nova regra de repouso; um ano depois dessa primeira etapa, teto de 40 horas. Na data desta apuração, a transição ainda não havia começado. [18]

“Para quem trabalha, tempo de descanso também é condição de vida: permite cuidar da saúde, conviver com a família, estudar e participar da comunidade.”

A emenda admite compensação das folgas por negociação coletiva, com média de dois dias de descanso por semana no mês e ao menos um dentro de cada semana de trabalho. Há regras específicas, inclusive de transição para trabalhadores alocados em contratos da administração pública. O direito efetivo dependerá da aplicação das normas, da fiscalização e da capacidade de impedir redução salarial ou compensações abusivas. [18]

A proposta de Reginaldo Lopes, do PT, tramitou com a de Erika Hilton, do PSOL. No Senado, o texto foi aprovado em dois turnos por 75 votos a um. A votação ampla mostra que as resistências e os interesses distintos do Congresso podem ser superados em determinadas pautas. Lula participou da cerimônia e apoiou a mudança, promulgada pelas mesas do Congresso, sem sanção presidencial. A conquista tem construção parlamentar e social, e não autoria exclusiva do Executivo. [19]

Para quem trabalha, tempo de descanso também é condição de vida: permite cuidar da saúde, conviver com a família, estudar e participar da comunidade. A aprovação merece ser reconhecida. A cobrança ao governo e ao Legislativo continua sendo transformar crescimento, renda e direitos em melhora que chegue de fato à rotina das famílias.

Como os dados foram comparados

Apuração em 18 de outubro de 2026. Valores nominais, sem correção inflacionária. Base de preços em dezembro de 2022. Carne: mesma categoria Procon-SP/Dieese e mesma capital da reportagem anterior; série mensal de janeiro de 2023 a agosto de 2026, último relatório localizado. Gasolina: médias mensais estaduais da ANP, janeiro de 2023 a setembro de 2026. IPCA: composição multiplicativa das taxas mensais da tabela 7060, com dados até setembro de 2026, regiões metropolitanas de São Paulo e Rio. Escala vertical da capa de −20% a 84%, ampliada na parte inferior para incluir as quedas; recortes geográficos distintos. Piso salarial vigente em cada data, antes de descontos. TSE: registros do primeiro turno de 2022, eleitos, eleitos por quociente partidário ou por média, cargos deputado estadual e distrital, sem duplicação de candidatura; categorias ocupacionais literais. DIAP e frentes parlamentares usam critérios e datas distintos; não são parcelas exclusivas da população nem medem causalidade ou o voto individual. O mandato 2023–2026 ainda estava em curso.