A carne de segunda sem osso, alternativa frequentemente procurada para economizar, chegou a custar mais que o dobro da referência anterior ao governo Jair Bolsonaro. Na pesquisa do Procon-SP em convênio com o Dieese, o preço de referência na capital paulista passou de R$ 18,11 por quilo em dezembro de 2018 para R$ 36,89 em agosto de 2021: alta de 103,7%. A base de 2018 foi ajustada pelo próprio órgão para preservar a comparação após uma mudança na coleta em 2019. [1,2]
A gasolina também alcançou patamares que pressionaram o orçamento. Na série mensal da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a média estadual da gasolina comum atingiu R$ 6,934 por litro em São Paulo, em abril de 2022, e R$ 7,810 no Rio de Janeiro, em maio. Os aumentos sobre dezembro de 2018 foram de 67,2% e 61,8%, respectivamente. São picos de médias mensais, e não os maiores preços de um posto isolado. [3]
| Produto e local | Antes da posse — dezembro de 2018 | Pico identificado | Dezembro de 2022 |
|---|---|---|---|
| Carne de segunda sem osso — São Paulo capital | R$ 18,11/kg* | R$ 36,89/kg — agosto de 2021 | R$ 32,36/kg |
| Gasolina comum — Estado de São Paulo | R$ 4,148/l | R$ 6,934/l — abril de 2022 | R$ 4,870/l |
| Gasolina comum — Estado do Rio de Janeiro | R$ 4,826/l | R$ 7,810/l — maio de 2022 | R$ 5,060/l |
O aumento que pesa no prato
Uma compra ilustrativa de cinco quilos dessa carne passaria de R$ 90,55, na referência de 2018, para R$ 184,45 no pico de 2021. Considerando os salários mínimos de cada época, o gasto subiria de 9,5% de um mínimo de R$ 954 para 16,8% de um mínimo de R$ 1.100. O reajuste do piso, portanto, ficou muito abaixo dessa alta específica. Os valores são brutos e o exemplo não representa uma recomendação nutricional nem uma pesquisa sobre o consumo de todas as famílias. [1,2,4]
“O reajuste do piso, portanto, ficou muito abaixo dessa alta específica.”
Nos picos da gasolina, 30 litros custariam R$ 208,02 em São Paulo e R$ 234,30 no Rio. Isso equivalia a 17,2% e 19,3% do salário mínimo de R$ 1.212 vigente em 2022. A despesa também atingia trabalhadores que dependiam de veículo para obter renda. Quem não abastece diretamente pode ser afetado por custos de transporte, embora o frete de alimentos dependa sobretudo do diesel, e não possa ser calculado apenas com a gasolina. [3,4]
| Compra ilustrativa no pico | Renda de 1 mínimo | Renda de 2 mínimos | Renda de 3 mínimos |
|---|---|---|---|
| 5 kg de carne em SP — agosto de 2021 | 16,77% | 8,38% | 5,59% |
| 30 litros de gasolina em SP — abril de 2022 | 17,16% | 8,58% | 5,72% |
| 30 litros de gasolina no RJ — maio de 2022 | 19,33% | 9,67% | 6,44% |
Cálculos da reportagem com salários mínimos de R$ 1.100 em 2021 e R$ 1.212 em 2022, sem descontos. Cada linha usa a renda vigente na data da compra; as despesas de datas diferentes não foram somadas.
Renda baixa amplia o risco de insegurança alimentar
O impacto de uma alta de preços depende de quanto sobra depois das despesas essenciais. A Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018 do IBGE mostrou que alimentação e habitação respondiam por cerca de 61% das despesas de consumo das famílias com renda de até dois salários mínimos. A alimentação mais cara disputa um orçamento já comprometido com moradia, contas e outras necessidades. [5]
“A alimentação mais cara disputa um orçamento já comprometido com moradia, contas e outras necessidades.”
O tamanho dessa vulnerabilidade exige cuidado com as estatísticas. A Síntese de Indicadores Sociais 2023 do IBGE informa que, em 2022, 60,1% da população vivia com renda domiciliar de até um salário mínimo por pessoa. Outros 31,8% estavam acima de um e até três mínimos por pessoa. Somadas, essas faixas abrangiam cerca de 92% da população com até três mínimos por pessoa. Renda familiar, renda por morador e salário individual são medidas diferentes. [6]
Em 2022, o segundo inquérito da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN) estimou 33,1 milhões de pessoas em situação de fome. Trata-se de uma pesquisa independente, não de um levantamento do IBGE. A alta dos alimentos agrava o risco, mas o nível de renda, isoladamente, não permite diagnosticar a segurança alimentar de cada família. [7]
A queda posterior não elimina a perda de acesso
A trajetória não foi de aumentos contínuos. A carne de segunda caiu depois do pico e encerrou dezembro de 2022 a R$ 32,36/kg, ainda 78,7% acima da referência ajustada de dezembro de 2018. A gasolina terminou o mandato abaixo dos picos. Em junho de 2022, Bolsonaro sancionou a lei que limitou o ICMS de combustíveis e energia; a Petrobras também reduziu preços de venda da gasolina às distribuidoras no segundo semestre. O efeito dessas medidas deve fazer parte do balanço. [1,3,8]
“Preço menor, porém, pode coexistir com consumidores sem dinheiro para comprar.”
Preço menor, porém, pode coexistir com consumidores sem dinheiro para comprar. Em agosto de 2022, o Cepea, da Esalq/USP, relacionou a desvalorização da carne bovina no atacado ao baixo consumo interno e à fragilidade do poder de compra, em um ambiente de inflação elevada. A queda da demanda constitui um sinal distinto de recuperação do acesso aos alimentos. [9]
O que explica as altas e qual o papel das privatizações
Os relatórios do Procon-SP apontam, para a carne em 2020 e 2021, exportações aquecidas, oferta restrita de animais para abate e aumento dos custos de insumos e alimentação do gado. Energia e transporte mais caros podem ampliar custos de produção e distribuição. O repasse ao consumidor depende também de concorrência, oferta, demanda e margens; não é possível atribuir toda a inflação dos alimentos a uma única causa. [2,10]
“O repasse ao consumidor depende também de concorrência, oferta, demanda e margens; não é possível atribuir toda a inflação dos alimentos a uma única causa.”
A saída da Petrobras da BR Distribuidora, com perda do controle em 2019 e venda da participação remanescente em 2021, reduziu sua presença direta nesse segmento. Isso permite discutir o alcance da atuação pública na cadeia. Os dados de preços aqui apresentados, entretanto, não isolam quanto dessa alta decorreu da privatização. Petróleo internacional, câmbio, tributos, etanol anidro, distribuição e revenda também entram na formação do preço. A Eletrobras atua no setor elétrico, não na oferta de gasolina. [11]
Também não se pode explicar a alta da luz de todo o mandato pela desestatização da Eletrobras, concluída em 2022. A crise hídrica e o acionamento de termelétricas já pressionavam custos em 2021, quando foi criada uma cobrança adicional de R$ 14,20 por 100 kWh. A operação da Eletrobras deve ser examinada por seus termos e efeitos específicos, sem inverter a cronologia. [12,13]
Superávit não mede sozinho o bem estar das famílias
Na divulgação original de janeiro de 2023, o Tesouro registrou superávit primário de R$ 54,1 bilhões do Governo Central em 2022, antes dos juros. A operação da Eletrobras envolveu R$ 26,6 bilhões em bonificação de outorga. A receita extraordinária contribuiu para o caixa e não se repete automaticamente todos os anos, mas não explica sozinha todo o saldo. Arrecadação tributária, dividendos, outras concessões e despesas também precisam ser examinados. [13,14]
“Crescimento, lucros e arrecadação, contudo, não demonstram por si sós que o poder de compra melhorou para todos.”
O PIB cresceu 3,0% em 2022, segundo a revisão anual do IBGE. Ao mesmo tempo, a Petrobras informou lucro recorde de R$ 188,3 bilhões, favorecido principalmente pelo petróleo mais caro. A companhia também recolheu tributos e participações governamentais, o que impede resumir o resultado como ganho exclusivo de bilionários. Crescimento, lucros e arrecadação, contudo, não demonstram por si sós que o poder de compra melhorou para todos. [15,16]
Um estudo publicado na revista Economia e Sociedade, baseado em dados tributários e contas nacionais, estimou que a parcela da renda apropriada pelo 1% mais rico passou de 22,96% em 2019 para 28,82% em 2022. É uma estimativa acadêmica, não uma taxa oficial do IBGE. O próprio trabalho mostra que o Gini da pesquisa domiciliar caiu entre esses anos. As fontes captam dimensões diferentes da desigualdade e devem ser apresentadas com essa distinção. [17]
O orçamento das famílias também precisa entrar no balanço
Para avaliar a economia pela vida de quem trabalha, é preciso acompanhar se a renda permite comprar comida, pagar moradia e manter serviços essenciais. Produção maior e equilíbrio fiscal importam, mas devem ser examinados junto com emprego, salários, distribuição de renda e acesso efetivo à alimentação. A proteção alimentar depende dessa combinação, e não apenas do crescimento do PIB.
“A proteção alimentar depende dessa combinação, e não apenas do crescimento do PIB.”
Como os dados foram comparados
Método: preços nominais, sem correção inflacionária. Carne de segunda sem osso é uma categoria da pesquisa Procon-SP/Dieese na capital paulista, não o preço de um corte individual. A referência de dezembro de 2018 é a ajustada no relatório de 2019. Os picos da gasolina são os maiores valores na série de médias mensais estaduais da ANP entre janeiro de 2019 e dezembro de 2022. O gráfico da capa usa o IPCA da região metropolitana de São Paulo e tem abrangência diferente das demais referências. O levantamento descreve variações durante o mandato e não estima o efeito causal isolado das decisões do presidente.